Três meses depois de assumir a gestão da Solução Intermédia de Frio da Caála, a Bacatral conta 173 parceiros registados. O objectivo do operador vai além de guardar produtos: quer dar ao agricultor tempo para negociar e um preço que pague o que gastou, o seu trabalho e uma margem para crescer.
A empresa, do Grupo António Mosquito (GAM), iniciou a operação a 1 de Julho de 2026. O modelo de gestão foi apresentado na cerimónia de inauguração, nesta segunda-feira, 5 de Outubro, pela representante da Bacatral, Ariana Ortete.
O relógio da colheita
O problema que a infra-estrutura quer resolver cabe numa frase. “Sem condições de conservação, depois da colheita, o relógio começa imediatamente a trabalhar contra o produtor”, explicou Ariana Ortete. O produto perde qualidade, o agricultor precisa de vender depressa “e quem precisa de vender rapidamente tem muito menos capacidade de negociar”.
O frio altera essa relação: dá tempo para conservar, juntar volumes, organizar o transporte e procurar o melhor comprador. “Na agricultura, tempo tem valor económico”, resumiu.
Primeiro o comprador, depois a semente
A Bacatral assume duas funções. Gere a infra-estrutura, com processos, controlo de qualidade e rastreabilidade. E actua como grossista, fazendo a ponte entre quem produz e quem compra, de supermercados a hotéis, restaurantes e instituições.
A ambição é inverter a lógica habitual, em que o agricultor produz primeiro e só depois da colheita procura quem compre. “Queremos caminhar para uma realidade em que, antes mesmo de a primeira semente entrar na terra, já exista conhecimento do mercado e, sempre que possível, um comprador identificado”, disse a representante do operador.
O que é um preço justo
No modelo apresentado, preço justo não é o preço mais alto, mas um preço economicamente sustentável. A conta parte do que custa produzir (sementes, fertilizantes, água, mão-de-obra, equipamentos, transporte), soma uma remuneração pelo trabalho do produtor e uma margem de lucro, e relaciona o total com a quantidade que ele consegue efectivamente vender.
“Se apenas recupera os custos, sobrevive”, sublinhou Ariana Ortete. “Mas, se recuperar o seu investimento, for remunerado pelo seu trabalho e conseguir gerar uma margem de lucro, então começa verdadeiramente a crescer.”
O operador não promete acabar com as oscilações de preço. Promete reduzi-las, com produção planeada, culturas escalonadas e oferta regular ao longo do ano. Quando há produto a mais, perde o agricultor; quando há escassez, perde o consumidor. “Não queremos construir um modelo de negócio baseado em ganhar com a escassez”, afirmou.
173 registos, 173 histórias
Entre os 173 parceiros registados desde Julho estão 32 produtores, 31 fornecedores, seis clientes, duas cooperativas e associações e 47 pessoas de contacto, além de outros registos ainda em validação. Cada entrada no sistema de gestão responde a perguntas concretas: quem produziu, onde, quanto, em que lote, quanto tempo ficou armazenado, a quem foi vendido e a que preço.
“Para nós, estes números não são apenas números. Cada produtor cadastrado representa uma pessoa, uma família, uma comunidade”, disse Ariana Ortete. A meta, nas suas palavras, é “que o camponês se torne agricultor, o agricultor se transforme em empreendedor e o empreendedor se transforme em empresário”.
O operador deixou também um aviso: a cadeia de frio não substitui uma boa agricultura. Sem boas práticas no campo, selecção, embalagem e transporte adequados, o frio sozinho não chega.
O que se espera medir
As projecções apresentadas na cerimónia, baseadas em casos de referência de cámaras frigoríficas nas zonas rurais, apontam para uma redução das perdas alimentares até 40% e um aumento do rendimento dos pequenos agricultores entre 30% e 100%. A unidade emprega cerca de 50 pessoas e deverá movimentar 5 mil toneladas no primeiro ano.
Para o grupo, o projecto tem também um lado pessoal: o fundador, António Mosquito, é natural da Caála. “Crescer deixa de significar apenas conquistar. Passa também a significar retribuir”, disse Ariana Ortete.